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LIVROS DE PEDRA
Os templos católicos de estilo
gótico construídos na Idade Média
revelam toda a magia dos ocultistas e sociedades secretas da época
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Por João Magalhães
Os sinais cabalísticos estão
por toda a parte: nas altas colunas de mármore, nos capitéis,
nos arcos, nos altares. Eles contam a história da construção
das catedrais góticas - símbolos da religiosidade católica
mas também dos mais profundos mistérios da magia que imperava
na Idade Média.
Estão ali rastros dos druidas (sacerdotes celtas que reverenciavam
as florestas como divindades), visíveis na arquitetura que lembra
um bosque petrificado. Estão também nas rosáceas
- um dos mais importantes símbolos da ordem dos cavaleiros templários
e dos maçons desenhadas nos vitrais. Estão ali ainda os
signos do zodíaco prova de que a astrologia era admitida pelos
papas da igreja da época.
Enfim, Notre Dame, Chartres, Amien, Colônia e Duomo de Milão
podem ser vistas como gigantescos livros de pedra, cuja leitura exige
não só uma boa dose de conhecimento esotérico mas
a capacidade de ver além da realidade.
Notre Dame
Iniciada em 1163 e concluída em 1330, já abrigou
sob seus arcos coroações e mendigos. Também
resistiu a devastações entre os séculos
18 e 19, quando teve suas pinturas e estátuas, vitrais
e portas, tirados e substituídos por ornamentos barrocos.
Na Revolução Francesa, transformaram-na em depósito
de suprimentos e uma das torres foi derrubada simbolicamente,
decapitada como os membros do clero. Mais tarde, vendida ao
conde de Saint-Simon, quase foi demolida. Durante a Comuna de
Paris, tentou-se incendiá-la. Sobreviveu a tudo e resiste,
cercada por lendas, como a do ferreiro Biscornet. Dizem que,
encarregado de fazer suas fechaduras e assustado com a tarefa,
Biscornet teria pedido ajuda ao Diabo, que, aliás, deve
ter aceitado o pacto, pois as fechaduras são mesmo obras
de arte. |
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Até a adoção do estilo
gótico - que surgiu no início do milênio, no norte
da França, e rapidamente se espalhou pela Itália, Alemanha,
Inglaterra, Espanha e Áustria - os templos católicos eram
erguidos segundo os princípios românicos: escuros como cavernas.
Todo o seu peso se apoiava em suas largas paredes. Já as catedrais
góticas são claras, exuberantes e sua sustentação
está nas abóbadas. O gótico representa a verticalização
da fé e convida a uma união com a divindade. Seus elementos
seriam o fogo e o ar, que evocam a purificação iniciática
e a elevação espiritual. Eles estão expressos em
vitrais, torres e nas rosáceas vermelhas, cujas formas lembram
labaredas. A intenção dos arquitetos ao pintar as rosáceas
era fazer com que a luminosidade criasse a sensação de um
fogo iniciático, durante as vésperas e na hora mariana (horários
canônicos correspondentes a 6 e 18 horas). Consideradas pantáculos
(espécies de talismã) do cristianismo, as rosáceas
são a principal fonte de entrada de luz no interior das catedrais
góticas. Geralmente, há duas delas nas laterais e uma sobre
a entrada principal - para os ocultistas, esta última rosácea
é a fronteira entre o sagrado e o profano.
Na verdade, as rosáceas funcionam como um mapa das tradições
que são transmitidas há séculos aos iniciados.
"Uma das chaves para sua interpretação são as suas
cores, as mesmas do arco-íris - um símbolo da aliança
de Deus com o homem, no fim do dilúvio", diz o pesquisador
Leo Reisler.
Chartres
Teve sua construção iniciada em 1194, num local
onde havia, nos tempos pagãos, uma gruta com a estátua
de uma Virgem Negra, esculpida em madeira pelos druidas e venerada
por milhares de peregrinos franceses. Desde dos primórdios
do cristianismo, a gruta fora substituída por templos
católicos. Mas a catedral com suas 178 janelas, 2500
metros quadrados de vitrais e 700 estátuas e estatuetas
no Portal Real só ficou pronta em 1260, sob o reinado
de Filipe Augusto. Toda a cidade participou dos trabalhos, e
era hábito os pescadores assumirem o lugar dos cavalos
entre as cangas dos carros que transportavam material. Um sacrifício
e tanto, pois a pedreira mais próxima ficava a meio dia
de viagem. E, diariamente, antes do expediente, todos comungavam,
para não contaminar a obra. |
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Também os alquimistas dão grande
importância a esse elemento da arquitetura gótica. Até
o final da Idade Média, a rosácea central era chamada de
A Roda, que na alquimia significa o tempo necessário para
o fogo agir sobre a matéria, transmutando-a. Essa visão
é reforçada pelo esquema de incidência de luz sobre
elas. A rosácea da lateral esquerda, por exemplo, nunca é
iluminada pelo sol. É a cor negra, a matéria em seu estado
bruto, a morte. Já a da direita, irradia, ao sol do meio-dia, uma
luminosidade branca - a cor das vestes doiniciado que acaba de abandonar
as trevas. Finalmente, a rosácea central, ao receber a luz do pôr-do-sol,
parece incendiar-se, e banha o templo com um tom rubro, sinônimo
da perfeição absoluta, da predominância do espírito
sobre a matéria.
De acordo com mapeamento feito pelo pensador católico Bernard Clairveaux,
fundador da Ordem Cisterciense, de monges beneditinos, as catedrais góticas
ficam próximas de antigos menires (pedras sagradas), consideradas
como centros de energia do mundo.
Também a estrutura das catedrais góticas não parecem
resultado de simples cálculos arquitetônicos. De acordo com
Fulcanelli, o grande alquimista que nos anos vinte escreveu O Mistério
das Catedrais, o plano dessas igrejas tem a forma de uma cruz latina estendida
no solo.
Na alquimia, essa cruz é símbolo do crisol, ou seja, do
ponto em que a matéria perde suas características iniciais
para se transmutar em outra completamente diferente.
Nesse caso, a igreja teria então o objetivo iniciático de
fazer com que o homem comum, ao penetrar em seus mistérios, renascesse
para uma nova forma de existência, mais espiritualizada. Ainda segundo
Fulcanelli, essa intenção é reforçada pelo
fato de a entrada desses templos estar sempre voltada para o Ocidente.
Colônia
A construção começou em 1248 e só
foi finalizada em 1880, por Frederico Guilherme IV, que conseguiu
recuperar o projeto original. Concebida para abrigar os restos
mortais dos três Reis Magos, saqueados da Lombardia por
Barba-Roxa e guardados num sarcófago de ouro e prata
com 300 quilos de peso, a igreja ostenta quase 7 mil metros
de faixada e é um dos maiores templos do mundo. Suas
janelas têm 17 metros de altura, e as torres, que alcançam
150 metros, abrigam sinos grandiosos com mais de trinta toneladas
de bronze. O curioso é que metade desse bronze foi obtida
com a fundição de canhões requisitados
de inimigos vencidos. Durante a Segunda Grande Guerra, quando
a cidade foi praticamente destruída, a situação
se inverteu e os sinos é que foram fundidos, para se
transformar de novo em armamentos. |
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Assim, ao se caminhar na direção
do santuário, volta-se obrigatoriamente para o Oriente, o lugar
onde nasce o sol, ou seja, sai-se das trevas e ruma-se para a Luz, em
direção ao berço das grandes tradições
espirituais.
Esse convite à iniciação está presente até
mesmo no piso, em que costuma haver a representação de um
labirinto. Chamados de Labirintos de Salomão (rei bíblico,
símbolo da sabedoria) elescostumam se localizar num ponto em que
a nave (o espaço que vai da entrada do templo ao santuário)
e os transeptos (os braços da cruz) se unem. Seu sentido alquímico
é o mesmo do mito grego de Teseu, o herói que entra num
labirinto a fim de combater o Minotauro. Após vencer o monstro
- metade homem, metade touro - consegue voltar, graças ao fio que
sua esposa Ariadne (aranha) lhe dera.
Filosoficamente, os labirintos são os caminhos que o homem percorre
em sua vida: cedo ou tarde ele entrará em contato com seu monstro
interior, isto é, seus defeitos de caráter. Quem consegue
combater e vencer as próprias imperfeições (o Minotauro)
e possuem o fio de Ariadne (símbolo do conhecimento iniciático)
conseguem efetivamente ver a verdadeira Luz. Em Amiens, norte da
França, essa alegoria torna-se clara, graças à existência
de uma grande lage na qual se esculpiu um sol em ouro bem no centro do
labirinto. Já em Chartres, havia antigamente uma pintura que mostrava
todo o mito de Teseu.
Talvez o mais intrigante de todos os mistérios que envolvem a construção
das catedrais é que nenhuma delas possui um autor, alguém
que assine o projeto. Até hoje, o único tipo de identificação
encontrado são marcas gravadas nas pedras. Essas marcas representam
geralmente instrumentos de trabalho estilizados, como martelos e compassos,
e era um tipo de registro profissional, que o mestre-de- obras usava para
controlar o trabalho de cada um de seus obreiros.
Amiens
Construída em 1221, é uma das obras-primas
do gótico na França. Um verdadeiro feito, pois
em apenas três séculos os franceses ergueram nada
menos que 80 catedrais e 500 grandes igrejas neste estilo, sem
falar nos milhares de templos paroquiais. Era uma verdadeira
corrida arquitetônica, na qual Amiens saiu vencedora,
superando até mesmo Chartres e Notre Dame. Sua abóbada
atinge a altura de quase 43 metros e cria uma sensação
de suntuosidade inigualável. Claro que a realização
desse feito exigiu o empenho de toda a comunidade, e, sempre
que os fundos escasseavam, os monges e cônegos locais
ofereciam indulgências àqueles que colaborassem
com a construção. Exortavam, particularmente,
os penitentes e moribundos, lembrando-os de que já estavam
"mais próximos do paraíso" do que no dia anterior. |
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Todo artesão possuía uma marca
própria, que passava de pai para filho, de mestre para discípulo.
Em função de guerras, pestes e outros flagelos, muitas vezes
as obras das igrejas ficavam temporariamente interrompidas, e os trabalhadores
viajavam, oferecendo seus serviços em outras cidades e países.
Ganharam, assim, o nome de franc-maçons, ou pedreiros livres, cuja
associações acabaram resultando na Maçonaria. Mas
esta, embora detenha antigos conhecimentos esotéricos, se consolidou
como ordem iniciática apenas em 1792.
Se a busca dos idealizadores do gótico ainda permanece um enigma,
o estudo da origem da expressão "arte gótica"
apenas reforça a idéia de que sua inspiração
é totalmente mística. Estudos etimológicos remetem
às palavras gregas goés-goéts, de bruxo, bruxaria,
que sugere a idéia de uma arte mágica. O alquimista Fulcanelli
prefere associar "arte gótica" a argot, que significa
idioma particular, oculto, uma espécie de cabala falada, cujo os
praticantes seriam os argotiers (argóticos), descendentes
dos argonautas. No mito grego de Jasão, eles dirigiam o navio Argos,
viajando em busca do Tosão de Ouro. Jasão teria sido um
grande mestre, que iniciava seus discípulos nos mistérios
egípcios, inclusive na geometria sagrada, que é uma das
chaves da arquitetura gótica.
Prova dessa herança egípcia está no fato de os construtores
góticos disporem os símbolos que aparecem nos entalhes,
nas estátuas, nos medalhões e vitrais de maneira que obedeçam
sempre a uma seqüência que torna inevitável a associação
de uns com os outros. Trata-se de um recurso egípcio de memorização
que permite a apreensão de um grande número de informações,
pois somos, sem perceber, levados a relacionar cada coisa ao local onde
ela se encontra.
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Duomo de Milão
Com a pedra fundamental lançada em 1386, inaugurada
várias vezes e ainda incompleta, é uma espécie
de tapete de Penélope dos milaneses. A iniciativa da construção
partiu do duque Gian Galeazzo Visconti, que a ofereceu como ex-voto
à Virgem, em troca de um herdeiro. Mas toda a cidade contribuiu,
até mesmo as prostitutas, que ofereceram uma noite de trabalho.
Com 11 mil metros quadrados de área, 145 agulhas de 180 metros
de altura, 3159 estátuas e 96 gigantes esculpidos, é
um monumento que ainda consome milhões de liras em sua finalização.
E para o qual até mesmo os sucessivos invasores de Milão
(beleguins, croatas, alemães, espanhóis e franceses)
contribuíram.
Napoleão, por exemplo, construiu a fachada e a imperatriz
austríaca Maria Teresa doou um Cravo da Cruz de Cristo como
relíquia. |
Talvez seja esse o motivo pelo qual muitas
vezes o zodíaco está representado dentro das catedrais fora
de sua ordem convencional. Longe de ser aleatório, esse desmembramento
está relacionado ao sentido mais esotérico de cada signo,
como se vê a seguir:
Áries
Geralmente sua figura é a de um carneiro, que simboliza o início
do caminho na busca da elevação espiritual.
Touro
Representado pelo próprio Touro, às vezes está associado
ao evangelista Lucas; às vezes a Cristo. Simboliza a vida na matéria.
Gêmeos
Sua representação usual é de duas figuras humanas
abraçadas, que expressam a capacidade de elevar espiritualmente
o próximo por meio da transmissão de conhecimentos. Em Chartres,
este signo aparece junto a uma das portas e mostra dois cavaleiros atrás
de um grande escudo.
Câncer
Na forma de um caranguejo ou de um lagostim, costuma estar próximo
da pia batismal, junto da imagem do arcanjo Gabriel. Com certeza, trata-se
de uma influência da Cabala, que associa a Lua, regente de Câncer,
a Gabriel, o emissário do nascimentos. A intenção
é mostrar que, por meio do batismo (ritual iniciático),
o homem pode se religar às esferas espirituais das quais se origina.
Leão
Com a mesma representação de hoje, é emblema
do evangelista Marcos, a quem emprestaria seus atributos de persistência
e força de vontade na busca da espiritualização.
Virgem
Algumas vezes aparece como uma jovem segurando uma espiga de milho.
Mas pode também estar representado por uma estátua da própria
Virgem Maria, com uma estrela na cabeça. É um dos signos
mais ricos de significados nas igrejas góticas, uma vez que a maioria
delas foi dedicada justamente à mãe de Cristo. Em Amiens,
por exemplo, ela se encontra em duas árvores. Na iconografia cristã,
uma delas representaria a árvore pela qual a humanidade caiu -
numa referência ao mito de Eva e da serpente tentadora enroscada
numa árvore - , enquanto a outra remete à cruz de Cristo,
pela qual a humanidade foi redimida
Libra
Quase sempre aparece como uma mulher segurando uma balança
desproporcionalmente grande, no interior da qual há uma pessoa
envolta num halo de luz. Seria um lembrete para o homem de que ele também
faz parte do divino.
Escorpião
Sua imagem pode ser traduzida por uma águia (símbolo
de elevação espiritual) e representa o evangelista João.
Ou, então, aparece como um escorpião mesmo, já com
um sentido de regressão espiritual. Só que, como não
havia escorpiões na Europa, muitas das suas representações
têm pouquíssimo a ver com a realidade. Em ambas as formas,
o signo está localizado aonde a luz do sol chega por último.
Sagitário
Este signo costuma ser representado por um centauro prestes a disparar
a sua flecha. Na catedral de Amiens, porém, ele aparece na forma
de um sátiro. Mas ambos traduzem a luta que o homem precisa travar
para vencer sua natureza material, a fim de ascender a planos mais elevados.
Capricórnio
Meio cabra, meio peixe, este signo indica as posições
que o homem tem de enfrentarem busca de espiritualização.
Aquário
Representado por um homem segurando um livro ou um pergaminho, foi
adotado como emblema do próprio cristianismo e do evangelho de
Mateus. Esotericamente, seria o ar cósmico, que permeia todas as
formas de vida.
Peixes
Rico em significados esotéricos, aparece normalmente como dois
peixes unidos por um cordão, nadando em direção opostas.
O cordão seria o fio de prata que une o espírito e a alma
durante a vida, mas que se rompe na morte. Um dos peixes corresponde,
portanto, ao espírito, que permanece acima do plano físico,
enquanto o outro, a alma, seria um intermediário direto com a matéria.
Uma curiosidade do cristianismo medieval é
que, com exceção do peixe, a maioria dos outros animais
eram considerados funestos, embora fosse comum encontrá-los nas
catedrais góticas. Dessa fauna maldita faziam parte o dragão
e o grifo, figura mitológica meio leão, meio pássaro
(invólucros do demônio), o cavalo (usado pelas forças
das trevas), o bode (luxúria), a loba (avareza), o tigre (arrogância),
o escorpião (traição), o leão (violência),
o corvo (malícia), a raposa (heresia), a aranha (o diabo), os sapos
(pecados) e até a avestruz (impureza ).
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