A crença em Deus é uma condição absoluta e
insuperável para o ingresso na Maçonaria e converte-se numa verdade comum
a todos os maçons, que consideram a Deus como o criador do Universo e
da vida. Em respeito a todas as religiões, a Maçonaria estabeleceu como
fórmula denominar a Deus como o Grande Arquiteto do Universo. Mesmo que
acreditar em Deus pressupõe a crença numa vida futura, a Maçonaria exige
subsidiariamente esta crença.
Também a Maçonaria considera indispensável a existência de um Livro da
Lei, o livro que, conforme a crença, se supõe conter a verdade revelada
por Deus. Conforme o credo predominante na nação onde a Loja maçônica
estiver localizada, este Livro poderá ser a Bíblia, o Antigo Testamento,
a Torah, o Corão, etc. Todos os iniciados prestam seu juramento sobre
o Livro da Lei Sagrada aberto, significando a revelação do ato que liga
a consciência do iniciante. Mas a Maçonaria não propõe nenhum sistema
de fé próprio e não tem como finalidade primordial prestar culto a Deus.
Inclusive, mesmo sendo acessível aos homens de todas as crenças religiosas
proíbe, expressamente, toda discussão religiosa-sectária em seus Templos.
Pelo exposto fica claro que a Maçonaria não é uma religião. Mas a partir
do século 17, o período conhecido como Operativa, cede seu passo para
a Maçonaria Especulativa ou Moderna, produzindo-se um desenvolvimento
espetacular em todos os países da Europa, promovendo dentre seus membros
a busca da verdade, o conhecimento do homem e do meio em que vive, exaltando
a virtude da tolerância e rejeitando todas as afirmações dogmáticas e
fanatismo. Em 1723 é publicada a conhecida como primeira Constituição
Maçônica do Reverendo anglicano, maçom, James Anderson, na Inglaterra,
que faculta aos maçons de seguir a crença religiosa que lhe convenha,
deixando a cada um a liberdade de suas convicções próprias desde que sejam
homens probos e honestos, não importando que crença professem.
Os tempos eram outros e conforme a essa mentalidade do passado, diríamos,
já superada com o desenvolvimento da razão humana, houve uma reação da
Igreja Católica romana, para “defender” sua doutrina, aparentemente sendo
atacada pela Maçonaria. Diversos Papas, a partir de 1738, emitiram Bulas,
Encíclicas e Cânones proibindo a participação dos católicos na Maçonaria.
Como explicação adicional aclaramos que uma Bula é um decreto papal e,
por tanto, deve ser obedecido pelo povo católico; uma Encíclica é uma
circular emitida pelo Papa para esclarecer e orientar os fieis sobre pontos
da fé, doutrina e dogmas da Igreja Católica; um Cânon é um ato jurídico
que tem força de decreto-lei e passa a formar parte do Código Jurídico
Canônico. Durante muitos anos o relacionamento entre as duas Instituições
foi muito precário. Hoje em dia, felizmente, existe um entendimento e
muita boa vontade entre a Igreja Católica e a Maçonaria permitindo ver
com otimismo o futuro deste relacionamento.
Em 1928 acontece uma reunião em Aquisgrán entre o padre jesuíta Hermann
Grüber e os maçons Lang, Lenhoff e Reichel, que concordam na necessidade
de suprimir de ambos lados, os meios não objetivos, caluniosos e ofensivos.
Durante a 2ª Guerra Mundial, o Núncio Roncalli, futuro
Papa João XXIII, trabalhou junto aos maçons Riandey e Marsaudon da Resistência
francesa. No 2º Concílio do Vaticano houve planejamentos ecumênicos
bem diferentes das posições intolerantes do passado. Em Fevereiro de 1969,
o advogado Allec Mellor, pede autorização do Vaticano, que é concedida,
para ser iniciado na Loja Esperança Nº 35, da Grande Loja Nacional da
França em 28 de Março do mesmo ano. Desde 1974 os Cânones 2335 e 2336,
os mais rigorosos em contra da Maçonaria, começam a ser questionados.
Em 14 de Outubro de 1968 de um diálogo entre o Grão Mestre da Grande Loja
Unida da Alemanha, Theodor Vogel, e o Cardeal de Viena, Franz Köening,
surge uma comissão formada por maçons e autoridades eclesiásticas que
tiveram muitas reuniões e ao término delas foi divulgada a Declaração
de Lichtenau em 5 de Julho de 1970, onde pregava o fim da controvérsia
e manifestando que as Bulas referentes à maçonaria somente tem valor histórico,
sem sentido nos tempos atuais e tornando a Lei Canônica impossível a uma
Igreja que ensina amar seus semelhantes.
Em 1984 aparece um Novo Código de Leis Canônicas, a SACRAE DISCIPLINAE
LEGIS, que de 2412 artigos cai para 1728. Este novo Código expurga a excomunhão
aos maçons, mas a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, através de
seu Prefeito, o Cardeal Ratzinger, afirma: "os fieis que pertencem
às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se
da sagrada comunhão".
Em 1992, depois de 10 anos de trabalho, foi publicado um novo Regulamento
Geral da Cúria Romana, dentre os 130 artigos, subsiste a proibição de
aderir a instituições e associações cujas finalidades são incompatíveis
com a doutrina e a disciplina da Igreja.
Em 1993 começam em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, reuniões entre autoridades
da maçonaria brasileira e do catolicismo, conforme idéia de Dom José Ivo
Lorscheiter, então Secretário Geral da Confederação Nacional de Bispos
Brasileiros (CNBB) e aprovada pelo Vaticano. Desde seu início, os encontros
são realizados em Porto Alegre, registrados em atas e distribuídas aos
participantes, para prosseguimento posterior das discussões. Estas se
fazem geralmente em cima de temas sobre os quais existam possíveis "divergências
doutrinárias" entre as partes. A idéia é que a Igreja e a Maçonaria
devem se entender e caminhar paralelamente, podendo, inclusive, realizar
atividades conjuntas naquilo em que possuam em comum, sem prejuízo algum
de suas identidades.
No mesmo ensejo de colaboração estreita entre as duas Instituições, tem
sido já corriqueiro dentro das Lojas maçônicas do Brasil a participação
em palestras de representantes da Igreja Católica, que são recebidos com
todas as honras.
Os esforços na procura singela da verdade, durante séculos, longe de sectarismos,
estão conduzindo os homens livres pelos mesmos caminhos, iluminados pela
luz que vem de Deus.
Para terminar, repetimos que a Maçonaria não é uma religião e não há como
estabelecer diferenças doutrinárias nem filosóficas com a Igreja Católica
ou qualquer outra fé. É à Maçonaria muito importante a realização
de trabalhos em conjunto com as Igrejas, sempre em favor do bem comum
da sociedade.
A Maçonaria esteve, está e sempre estará
de braços abertos para todos aqueles desejosos em construir uma sociedade
melhor.
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