A história da A.R.L.S. Guatimozin, nº66

O ano é de 1948.
O Brasil vive o pós guerra, saindo da ditadura do Estado Novo e entrando numa democracia. Em 1945, Getúlio Vargas tinha sido deposto por um Golpe de Estado e o Marechal Eurico Gaspar Dutra, eleito em 1946, estava na metade de seu governo. Uma das primeiras providências tomadas pelo Presidente Gaspar Dutra foi a convocação de uma Constituinte para uma nova Constituição que foi promulgada em 1946 e é conhecida como a mais democrática das Constituições brasileiras, e com uma observação curiosa : essa Constituição foi discutida, votada e promulgada por um grande número de dentistas e por isso é também conhecida como a Constituição dos dentistas. Esta Constituição perdurou até 1967, quando foi substituída por outra, durante o período da ditadura militar.
Em 1948, São Paulo já era a cidade que mais crescia no mundo, o parque industrial já era o maior do país, e por isso era considerada o lugar das grandes oportunidades. Não só imigrantes de várias lugares do mundo, como migrantes de todos os estados brasileiros para cá vieram, e muitos enriqueceram.
Era então Governador de São Paulo, o Dr. Adhemar de Barros, figura controvertida na política brasileira e que, na ocasião, preocupava-se em fortalecer sua administração com um secretariado digno da sua confiança e sabedor que vários de seus auxiliares eram maçons, interessou-se pela nossa Ordem.
Confirmada a sua disposição de ser iniciado, deliberou-se em constituir uma nova Loja, inicialmente de caracter emergencial ou provisório, em razão das fortes tendências políticas que dividiam não só os maçons, como a todos os outros homens de relevância da época, pois não era, de modo algum, pacífica a aceitação do então Governador, na Maçonaria.
A nova Loja, a princípio, chamar-se-ia "Loja Bandeirantes", em homenagem aos antigos desbravadores que partiram de nosso estado, mas durante a sessão extraordinária realizada em 25 de outubro de 1948, o irmão Sidney Delcides de Ávila sugeriu o histórico nome de "Guatimozin" por ser sido escolhido pelo Imperador D.Pedro I (vide neste site) quando do seu ingresso em nossa Ordem. A proposta foi aceita por unanimidade e acolhida por uma salva de palmas. Assim, esse foi o nome escolhido.

Ao se ingressar na Ordem Maçônica no Brasil, na única potência conhecida na época, que era o Grande Oriente do Brasil, o neófito devia assumir um apelido ilustre do passado pelo qual passava a ser reconhecido em Loja. Dom Pedro I ao ser iniciado na Ordem escolheu Guatimozin como seu apelido em homenagem a esse bravo guerreiro asteca que morreu lutando pela liberdade de seu povo. Pensamos que nosso Imperador e irmão, já levava em si o ideal de liberdade para o Brasil.

Guatimozin, nome espanholado do asteca Cuahtemoc, foi o último Imperador dos astecas, tendo nascido na atual Cidade do México em 1497. Filho do Rei Auitzatle e sobrinho de Moctezuma II. Aos 17 anos torna-se senhor de Tiotelolco, antiga cidade índia, que fazia parte da atual Cidade de México; na mesma época Cortés chega ao país. Preso Moctezuma II, os índios foram derrotados. Aproveitando-se da ausência de Cortés, Guatimozin provocou uma rebelião contra os invasores. Regressando à Cidade de México, Cortés tentou dominar a sublevação, expondo Moctezuma II diante de si, no terraço do palácio; Guatimozin pondo-se à frente dos índios, injuriou o Rei e feriu-o com uma pedrada; Cortés então, libertou Cuitlahuatzin, irmão de Moctezuma, esperando assim obter a submissão da cidade; mas o chefe libertado uniu-se a Guatimozin e ambos expulsaram os espanhóis da Cidade em 30 de junho de 1520. Morto Moctezuma II, provavelmente assassinado, Cuitlahuatzin, assumiu a coroa asteca, falecendo pouco depois, sendo substituído por Guatimozin, coroado em 15 de março de 1521 procurou em vão concluir uma aliança com os demais chefes indígenas para uma luta contra os invasores. Cortés assediou a Cidade de México, defendida pelos indígenas, numa luta encarniçada de 75 dias. Vitoriosos os espanhóis, aprisionaram Guatimozin em 13 de agosto de 1521. Cortés fez Guatimozin acompanhá-lo na expedição a Hibuerras e acusando-o de haver promovido uma revolta contra os espanhóis. Depois de torturá-lo em uma cama em brasas, enforcou-o em 26 de fevereiro de 1522 na cidade de Izancanaque.

Definido o objetivo e superados os primeiros obstáculos, ocorreu, às 20:00 hs de 20 de Outubro de 1948, no escritório do irmão Henrique Schimidt, situado na antiga rua do Arouche, 49, primeiro andar, no centro da capital paulista, a fundação da Loja Guatimozin 66.
Os irmãos que fundaram a nova Loja, todos filiados em Lojas da Jurisdição e membros da Grande Loja do Estado de São Paulo, foram : Carlos Reis Filho, Sereníssimo Grão Mestre da GLESP; Waldomiro Prado Silveira, Chefe da Casa Civil do Governador; Manoel Augusto Baltazar, Coronel do Exército Brasileiro; Domingos Whebe Salum, Coronel do Exército Brasileiro; Sidney Delcides De Avila, Deputado Estadual por São Paulo; Arthur Castro de Freitas Costa, Capitão do Exército Brasileiro; Henrique Smith; Cláudio da Silva Camargo; Reynaldo Smith Vasconcelos, médicos e Aloysio Menezes Geenhalg, dirigente partidário e candidato ao Senado.

A autorização para a fundação da Loja Guatimozin foi concedida pelo Grão Mestre, o Irmão Carlos Reis Filho, conforme consta na Ata da sessão extraordinária já citada, realizada no dia 20 de Outubro de 1948, e cujo parcial teor é o seguinte :

"Aos vinte dias do mês de outubro de 1948, na Rua do Arouche, 49, 1º andar, reuniram-se extraordinariamente Dr. Carlos dos Reis Filho, Waldomiro Prado da Silveira, Drs. Henrique Smith, Sidney Delcides de Ávila, Reinaldo Smith de Vasconcelos, Aloysio Menezes Greenhalg, Te. Cel. Manoel Augusto Baltazar e Srs. Cláudio da Silva Camargo, Whebe Salum e Arthur Castro de Freitas Costa, que deliberaram sobre a organização de uma nova Loja Maçônica, os trabalhos foram iniciados às 20 hs, sob a Presidência de Waldomiro da Silveira que discorreu com brilhantismo sobre as finalidades de esta reunião, demonstrando cabalmente a necessidade da criação de uma nova Loja, composta de elementos capazes e vindo ocupar no cenário nacional o lugar de destaque que lhe compete. Fez um estudo comparativo da Maçonaria no passado e no presente, nível intelectual, social e político, motivado pela incompreensão de suas finalidades. Pela ordem falou Smith que em breve alocução salientou a necessidade da criação de uma Loja "cérebro" preenchendo assim uma grande lacuna na Maçonaria Brasileira e apresentou o seu inteiro apoio a explanação do Irmão Waldomiro. Discorreram ainda sobre o palpitante assunto Cláudio, Aloysio e Baltazar, que em brilhantes Peças de Arquiteturas, defenderam os seus pontos de vista. Igualmente pela ordem fez uso da palavra o Sereníssimo Grão Mestre, fazendo uma apreciação dos trabalhos da Ação Maçônica Nacional, (uma entidade de âmbito nacional visando unir as Grandes Lojas Brasileiras), salientando a necessidade da existência de uma Loja que secundasse o esforço daquela entidade maçônica, no sentido de fortalecer cada vez mais a Grande Loja do Estado de São Paulo e em defesa dos postulados da maçonaria do Brasil. Em seguida o Irmão Waldomiro declara encerrada a discussão que é posta em votação a idéia da criação da nova Loja e é aprovada por unanimidade. Após a deliberação foi solicitado ao Sereníssimo Grão Mestre a sua opinião sobre o ato, tendo este declarado achar-se de pleno acordo com as deliberações tomadas, visto estarem todos os presentes investidos dos seus direitos maçônicos e amparados pela Constituição. Por aclamação procedeu-se os preenchimentos dos cargos, ficando assim constituída a nova diretoria em caráter provisório, até a completa organização da nova Loja :

Venerável Mestre - Waldomiro Prado da Silveira
1º Vigilante - Manoel Augusto Baltazar
2º Vigilante - Domingos Whebe Salum
Orador - Sidney Delcides de Ávila
Secretário - Arthur Castro de Freitas Costa
Chanceler - Henrique Smith
Mestre de Cerimônias - Cláudio P. Camargo
Tesoureiro - Reinaldo Smith de Vasconcelos
Hospitaleiro - Aloysio Menezes Greenhalg
1º Diácono - Alcides do Vale e Silva

Foram tomadas as seguintes deliberações :

A) Taxa de iniciação Cr$3.000,00 (três mil cruzeiros), sendo Cr$1.000,00 com a proposta, Cr$1.000,00 com o aviso de aceitação e Cr$1.000,00 da data da iniciação.
B) Taxa de filiação Cr$1.000,00 pago de uma só vez.
C ) Mensalidade Cr$200,00.
D) Serão considerados os fundadores os que tomaram parte nesta sessão e assinaram a ata.
E) Para as sessões magnas de iniciação será obrigatório o traje a rigor (smoking).
F) Nomear uma comissão composta dos Irmãos Baltazar, Cláudio e Castro para elaborar o Estatuto da Loja.
G) Até nova deliberação o local para as reuniões semanais será o mesmo da sessão de organização.
H) Marcar a próxima reunião para o dia 25 do corrente, no mesmo local para outras deliberações, e entre essas, a escolha do nome que terá a nova Loja.

E como nada mais tivesse a tratar, às 21,30 hs foi dada como encerrada a reunião e eu, Arthur Castro de Freitas Costa, Secretário de Ofício, lavrei a presente ata que vai assinada por todos os presentes. São Paulo (capital), 20 de Outubro de 1948".

(seguem-se onze assinaturas).

Na reunião extraordinária de 25 de outubro de 1948 confirma-se a fundação da Loja e se decide pelo nome Guatimozin, sendo a primeira reunião ritualística foi em 10 de Abril de 1949, em local situado na Avenida Celso Garcia, 873. A aprovação do Estatuto da Loja consta na Ata de 20 de Dezembro de 1948 e a Carta Constitutiva Definitiva tem a data de 20 de Janeiro de 1950.
Os quatro primeiros iniciados foram: Caio Dias Batista, Geraldo Sales Colonezi, Raul Péricles Carneiro de Souza e João Agripino Maia Sobrinho, que receberam os Placês de Iniciação números 1040, 1041, 1042 e 1043, em 6 de Outubro de 1949. A primeira Instalação aconteceu em 13 de Julho de 1950.
Com o Ato nº 125 de 20 de janeiro de 1950 da G.L.E.S.P., em 3 de fevereiro de 1950, presidindo a Comissão Manuel Augusto Balthazar, em sessão solene a Loja Guatimozin transformou-se em Loja permanente e definitiva, reconhecida como de grande importância no seio da Maçonaria Brasileira. Contando em seu quadro, dentre outros ilustres personagens, o deputado federal Farabulline Júnior; Caio Dias Batista, secretário de Viação e Obras Públicas; Sidney Delcides de Ávila, deputado estadual; Waldemar Teixeira Pinto, dirigente partidário; Cássio Ciampolini, deputado estadual; Gumercindo de Paula Fleury, do jornal A Gazeta; João Agripino Maia Sobrinho, da Secretaria da Agricultura; Ermano Marchetti, deputado estadual; Elias Chamas, vereador, etc.
A iniciação do Governador Adhemar de Barros provocou enorme polêmica no meio maçônico, culminando com a separação da Guatimozin e de outras Lojas, que se organizaram sob a constituição da Grande Loja Unida de São Paulo, através de autorização de outra Potência Maçônica, a Grande Loja da Bahia.
Nessa separação, recebeu a Guatimozin o número 10 de afiliação àquela dissidente potência, o que se terminou em 1959, quando o Grão Mestre Francisco Rorato conseguiu reconciliar a Maçonaria Paulista, reintegrando à Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo a Loja Guatimozin, voltando a receber o seu antigo número de fundação, o 66.



(adaptado dos textos do Irmão Mário Aparecido Gazzola e do discurso do Orador José Júlio Figueiredo Liza da Sessão Magna comemorativa do cinqüentenário da Loja Guatimozin)